Por Programa Semente em 01/09/2021
Desistir é para os fracos? Quando é preciso falar não em nome da saúde mental.

Atitudes de atletas olímpicas Simone Biles e Naomi Osaka mostram a importância dos aspectos psíquicos e da regulação das emoções para a saúde mental

Estrela das Olimpíadas de Tóquio em 2021, a ginasta norte-americana Simone Biles surpreendeu o mundo ao desistir de disputar as etapas finais da competição. “Tenho que me concentrar na minha saúde mental”, disse a atleta, que já tinha acumulado quatro ouros olímpicos em edições anteriores.

Em maio, o mesmo ocorreu com a tenista japonesa Naomi Osaka, número 2 do mundo, que abandonou um dos maiores torneios do planeta, Roland Garros, pelo mesmo motivo. Em Tóquio, Osaka, que inclusive acendeu a tocha olímpica, foi eliminada nas oitavas de final e declarou que sentiu muita pressão.

De acordo com Celso Lopes de Souza, médico psiquiatra, professor e fundador do Programa Semente, o tema que aflora com esses atletas é que todos nós temos os nossos limites, e eles incluem os limites psíquicos.

“Da mesma maneira que uma pessoa consegue segurar um peso e, a partir de determinado limite, ela teria um problema na coluna, existe também essa fronteira em relação ao estresse”, afirma.

“Isso ocorre quando o sofrimento psíquico passa a interferir no desempenho. Se você começa a ter uma ansiedade intensa, não a de um atleta olímpico que precisa estar preparado para isso, mas uma ansiedade com projeções de que você não vai dar conta e não vai atender às expectativas, essa falta de segurança pode provocar um acidente grave. Além disso, essa carga psíquica gera uma série de alterações no sono, no apetite, além da perda de foco”.

Ele diz que, quando se percebe que se chegou nesse ponto é preciso ir devagar e, em algumas situações, é necessário saber falar não, como se fosse uma torção de tornozelo. “Essa percepção psíquica e esse sofrimento também precisam ser atendidos.”

Segundo ele, é fácil em um primeiro momento nós olharmos e criticarmos essa decisão, até com expressões pejorativas, como “amarelou”. “Mas se a maioria de nós estivesse no lugar, tanto da tenista quanto da ginasta, com toda a sobrecarga de treino e trabalho que tiveram, somada à enorme expectativa que carregam, nós talvez tivéssemos até sucumbido antes.”

Qual o melhor momento para renunciar a alguma coisa em prol da saúde mental?

Em situações como essas, fica claro o quanto os sentimentos importam e como os aspectos emocionais são fundamentais. “Atletas de alto nível como elas têm algumas competências socioemocionais muito bem desenvolvidas, como as da família da autogestão.

Elas são dedicadas, determinadas, persistentes e possuem bastante foco e disciplina. No entanto, a modulação do medo para o nível de exigência que elas têm precisa ser mais desenvolvida.”

Celso aponta que esse aprendizado serve para todos nós. “Precisamos saber regular as nossas emoções para podermos ter paz e conseguir dar o melhor que nós podemos, com as condições que temos, sem ser prisioneiros das expectativas, principalmente das outras pessoas.”

Para ele, um exemplo disso foi a atuação da skatista Rayssa Leal, de apenas 13 anos, que conquistou a medalha de prata em Tóquio. “Ela conseguiu temperar a ansiedade com muito entusiasmo e com a alegria de estar lá. Temos aí as duas pontas. Mas a boa notícia é que as competências socioemocionais podem ser aprendidas, e os atletas podem se desenvolver nesses aspectos para continuarem brilhando.”

 

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